Fazia dois dias e uma noite que o morador do museu caminhava sob o sol escaldante. Vestia um par de sandálias, um manto branco com capuz e na mão direita carregava um cajado. Logo seu segundo cantil não teria mais água. Deu-se por vencido. Precisava voltar até a porta entre-mundos que criara. Do contrário ficaria preso nas páginas do livro que tinha invadido.
Ele não desistia de nenhuma empreitada sem persistir em seus objetivos. No entanto, nem sempre era fácil obter tudo o que desejava. Poderia voltar de novo em outro momento. O que não podia era morrer ali, morrer de sede. Estava definitivamente em um universo real. E a morte não perdoava os aventureiros despreparados. Era hora de admitir esse fracasso, não conversaria com o chinês nessa oportunidade.
Começou a caminhada de retorno para o ponto de partida. Nos pés, bolhas já haviam se formado, uma ou outra se rompido, ocasionando dor e feridas. Os lábios rachados pareciam implorar água antes que se rompessem em flores rosadas. O suor ao escorrer da testa, quando atingia os olhos fazia com que ardessem.
Contava os próprios passos, para ele não era difícil localizar a porta, o problema agora, se tratava de sua resistência física. Tinha ido muito longe naquela caminhada sem direção prévia. Mais uma noite fria chegou. Não se deu ao luxo de dormir. Precisava continuar seu trajeto pelo deserto antes que o cansaço lhe abatesse. Infelizmente não havia encontrado a direção correta para a cidadezinha de Abalone, no Arizona. Haveria de se conformar, pois não lhe ocorria uma solução diferente além de voltar para seu próprio mundo.
O calor escaldante do dia seguinte era o que faltava para extinguir as suas últimas forças. Cambaleando, tropeçou nas próprias pernas para desabar no chão empoeirado da terra seca e sem vida. Ele perdeu a consciência.
Sem saber quanto tempo depois, o morador do museu, também conhecido pela sua origem, o aqueu, abriu as pálpebras e olhou ao redor. Os olhos começaram a se acostumar com o escuro. Ouviu passos provindos de chinelos se arrastando à sua esquerda. Não teve dificuldade em virar o rosto naquela direção. Mas movimentar-se gerava um certo desconforto.
Viu um homem magro, de longos bigodes brancos e cavanhaque. Em pé, observava-o, com um sorriso fraterno. Quase não podia ver os olhos escondidos por pálpebras finas e horizontais. A careca do homem franzino parecia ter sido lustrada.
— O que meu camarada ocidental faz perdido por aqui, nesse deserto?
O aqueu sentou-se nos cobertores em que estava deitado. O chinês pegou um bule e serviu chá em uma xícara com a ilustração de uma quimera.
— Beba, caro aventureiro. Você precisa recuperar a saúde. O deserto já engoliu muitos homens de constituição mais avantajada do que você.
— Obrigado — o aqueu agradeceu e tomou daquele líquido amargo e revigorante.
Depois de beber avidamente o morador do museu disse:
— Procurava por você.
O chinês ficou quieto. Parecia processar aquela informação com a paciência e a sabedoria típica dos orientais. Em seguida falou:
— Se procurava, não procura mais. Pois é óbvio que já me encontrou. Gostaria de saber porque esse desejo?
— Tenho um problema que somente o senhor me ajudará resolver.
— Que tipo de problema, amigo ocidental?
— Estou com problemas de espaço. Sei que você transporta um circo repleto de atrações e tendas em apenas três carroças. Gostaria de saber o que você faz para conseguir esse feito? Estamos em uma de suas barracas de atrações? — o aqueu olhou em torno, mas não viu nada de especial.
— Sim e não — o chinês parecia não ter receio algum naquela conversa. O visitante, talvez fosse apenas um curioso ou então alguma espécie de mago que ainda não conhecia.
— O que você quer dizer com isso?
— Ora, exatamente o que eu disse. É uma barraca. Mas não é uma barraca de atrações. Eu a armo quando preciso descansar. Dessa vez a montei para poder ajudá-lo.
— Compreendo. Então, a estrutura do circo não está montada.
— É desnecessário, obviamente, armar toda a estrutura se não vou apresentar minhas atrações. Diga-me você viu o desfile do circo em algum lugar? Sua perspicácia em perceber que minhas carroças são insuficientes para guardar tudo o que possuo me admira. Nem todos possuem olhos apurados para isso.
— Conheci seu circo através de um livro.
— Um livro? — o chinês coçou a barba. — Escritores visitaram meu circo. Talvez, algum deles tenha relatado meu trabalho. É muito provável que isso tenha acontecido. Essa novidade que você me tráz me faz contente. Pelo visto meu circo recebeu alguma notoriedade. Mas espero que o autor tenha aprendido minhas lições, do contrário não serviria de nada.
— Tenho certeza que ele aprendeu.
— Fale-me mais amigo, sobre o fato de você estar tendo problemas com espaço — o chinês sentou-se sobre as peles que ocupavam o chão da barraca de lona avermelhada e também se serviu de chá.
— Possuo uma série de artefatos que coleciono há muito tempo. Periodicamente permito que as pessoas vejam minhas relíquias. Já expus em anfiteatros greco-romanos, em igrejas cristãs, em templos indianos, e hoje, devido a quantidade numerosa dos meus objetos tenho de guardá-los em caixas de madeira, ao menos a maioria. Todos eles estão armazenados conforme suas características intrínsecas. Hoje, meus pertences estão espalhados pelos quatro cantos do mundo. Gostaria de reuni-los em um único lugar. Depois de conhecer o seu circo pensei que poderia obter sua ajuda.
— Você gostaria de ter um circo itinerante igual ao meu?
— Não exatamente. Pensei em montar um museu. Mas não um museu comum, devido ao fato de que muitos dos meus pertences podem ser perigosos se caírem nas mãos erradas, e também, em função de que meus objetos possuem um caráter mágico — o aqueu conversava abertamente com o chinês sobre seus segredos. — Coleto minha relíquias do interior de livros.
As pálpebras horizontais e praticamente fechadas do chinês se abriram em uma expressão de curiosidade. Pelo visto, estava mesmo diante de outro mago.
— Creio que o melhor lugar para expor meus pertences seria um local com acesso contínuo de crianças. Elas são o melhor veículo para a continuidade da fantasia, da expansão da imaginação e do sonhar eterno. Pensei em abrir meu museu em um parque de diversões. Desculpe, não sei se você sabe o que significa esse conceito de parque de diversões?
— Os chineses, meu amigo ocidental, criaram a pólvora e os fogos de artifício. Como não conheceria o significado da palavra diversão? Não é isso que me deixa com perguntas varando a cabeça. Você disse que coleta seus objetos do interior de livros.
— Sim, Dr. Lao, foi isso mesmo o que eu disse.
— Sabe o meu nome também. É claro, se conhece meu circo, haveria de saber meu nome — o chinês coçou a sobrancelha. Sua inteligência alertava-o para alguma coisa estranha — Você também afirmou que soube da existência do meu circo a partir de um livro. Não é mesmo?
— Sim, Dr. Lao — o morador do museu estava com o semblante sério.
— Não costumo duvidar das pessoas, meu caro ocidental. Sempre escuto o que elas têm a dizer. Você me parece bem convincente. Mas pode provar o que me diz?
Sem maiores dificuldades o aqueu levantou-se. Saiu da tenda. Viu as três carroças velhas do Dr. Lao paradas. Esperou por ele. Olhou para todas as direções. Parecia um pouco desorientado. Então, disse ao chinês:
— Voltarei ao meu próprio espaço-tempo por uma porta tridimensional. Depois que desmaiei não tenho certeza que rumo devo seguir. Porém, esse problema pode ser resolvido facilmente se eu tiver o exemplar do livro que invadi em minhas mãos. Observe, Dr.
O aqueu colocou a mão em um bolso interno do manto e de lá retirou um livro. Manuseou o objeto como se fosse um espelho a procura da luminosidade do sol. Quando conseguiu a posição exata um facho de luz partiu da capa do livro e indicou uma direção. O proprietário do museu do terror disse:
— A porta, que utilizarei para retornar, fica na direção indicada pela luz do sol refletida no livro.
O chinês leu o título na capa, protegendo os olhos da luz azulada. Estava escrito: The circus of Dr. Lao de Charles G. Finney.
— Nunca vi nada parecido, meu amigo ocidental — o chinês criou coragem para falar.
O aqueu guardou o livro no bolso, já sabia em que direção deveria seguir para regressar.
— Esse é o livro do qual me falou? O livro que escreveram sobre meu circo?
— Sim, Dr. Esse é o livro.
— Diga-me, você crê que eu seja apenas ficção de um escritor? — Lao era perspicaz. Havia conectado as informações do ocidental. Se tudo o que aquele homem dizia era verdade, a verdade era que o chinês poderia se tratar apenas da invenção de um criativo escritor.
— Ainda não tenho essa resposta suficientemente clara. Desde as minhas primeiras viagens literárias descobri que todos personagens, cenários e enredos possuem vida anterior e posterior aquilo que foi escrito pelo autor.
— Difícil entender. Garanto a você que não sou apenas um recorte temporário de um livro. Eu existo. Nasci, cresci, tive filhos, me casei. Pretendo continuar vivendo depois que você partir. Tenho tarefas pra realizar. Possuo presente, passado e futuro. Vivo além de um livro.
— A teoria que defendo, quando tenho oportunidade de conversar com pessoas feito você é a seguinte: escritores são veículos de histórias que se realizam em mundos paralelos, em multiversos, em dimensões múltiplas. Os escritores captam, de alguma forma, pelos sonhos, pelas viagens astrais, pelas idéias lançadas no universo inúmeras realidades alternativas. Você é real Dr. Lao. Eu sou real. Mas não saberia responder qual de nós dois é mais real que o outro.
Dr. Lao sorriu. Aquela resposta o agradou de forma intensa. Estava visivelmente comovido e feliz.
— Antes que você volte para o seu mundo, meu amigo. Preciso lhe ensinar como guardar uma infinidade de relíquias em um único objeto. E, também, como fazer com que o seu museu tenha um interior de centenas de salas. O educarei no conhecimento da magia do espaço, Apolônio de Tiana me ensinou.
O chinês entrou na barraca. O aqueu o seguiu.